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  • Antonio Netto

Questão de tempo

Não se pode ir bem num país que vai mal. Essa frase, embora genial, não é minha. Mas de modo simples encerra ao mesmo tempo um falso dilema das corporações – ou do mercado se preferir – e um princípio fundamental da teoria dos jogos que daria a John F. Nash Jr. um Nobel em economia. Vamos ver o que uma coisa tem a ver com a outra e o que as duas têm a ver com o desempenho do seu bolso e da sua empresa.


Quem está no mercado precisa de dinheiro para financiar suas operações. Esses fundos são seus ou são captados junto ao mercado (bancos e investidores). As múltiplas formas de se captar dinheiro a mercado são conhecidas, então não vou detalhar esse ponto. O fundamento essencial de tudo isso é que sua empresa precisa ser, no mínimo, saudável e representar um risco baixo para que o mercado decida apostar em você. O apetite a risco dos operadores do mercado termina quando você perde a competência para tocar seu negócio, quando é engolido pela concorrência ou simplesmente deixa de inovar o suficiente, deixa de ser interessante e desaparece. Noutras: não basta que todos te achem o máximo se o mercado não concordar com isso.


Bancos e investidores têm apenas um interesse: rentabilizar o próprio capital.

Os melhores do mercado – os mais eficientes portanto – já entenderam que uma radical mudança na direção da sustentabilidade é não só inevitável, mas intrinsecamente necessária para que os negócios continuem fluindo. Se a sua empresa não fizer mudanças nessa direção sua capacidade de financiar o negócio vai diminuir bastante e quem tem dinheiro investido em você vai embora. Nós estamos pelo menos uma década atrasados em relação a sustentabilidade e ESG de modo geral. Mas a salvação ainda é possível. Larry Fink concorda, e não é de hoje.


Isso nos remete à teoria dos jogos, que forjou a segunda metade do séc. XX. Entenda: um jogo é qualquer interação social entre pessoas, seja fazendo negócios (corporações) seja jogando buraco no clube. O principal postulado de Nash é o equilíbrio: num jogo você deve sair melhor do que entrou. Não fala em vencedor. Ou seja, quando entrou numa disputa por mercado saiu com mais clientes do que tinha antes. Mesmo que seu principal concorrente tenha conquistado mais clientes ainda. A fim de que isso seja possível é necessário agir em defesa de seus interesses pessoais, sem importar-se com terceiros. O altruísmo não faz parte dessa equação. Esses seriam os fundamentos para uma sociedade baseada na liberdade: a noção de que posso ser destruído por outros tanto quanto posso destruí-los.


Filosofia à parte, a solução do jogo deve ser sempre a mais racional possível e a mais vantajosa para mim mesmo. Partindo disso e considerando que o universo corporativo está, sim, numa corrida para consumir recursos naturais até o ponto de não retorno, é fundamental que se adote a solução mais racional e egoísta neste momento: mudar os rumos da minha empresa antes que ela seja extinta. Ampliar o número de pessoas que consomem meu produto antes que eu seja inviável. Esperar por movimentos de mercado, ou seja, que alguém comece primeiro não é racional. Se você fizer isso vai perder, porque alguém vai sair na frente e quem te financia vai preferir essas empresas, menos dependentes de recursos naturais, menos suscetíveis a ficar no meio do caminho, por exemplo.


Não se pode ir bem num país que vai mal: se não compartilharmos o bem estar nossos mercados consumidores encolherão ao ponto da inviabilidade dos negócios.


Não podemos nos comportar de modo leviano com recursos naturais que são, por definição, finitos. Para que nossas indústrias vivam mais 100 anos fazendo a mesma coisa é essencial que comecem a fazer essas coisas de um jeito diferente. Há uma tempestade se formando no horizonte do mercado financeiro relativamente ao modo como empresas serão analisadas, investimentos e financiamentos serão alocados. Lembre-se: ninguém acreditava que o Lehman Brothers e o Bear Stearns poderiam quebrar, até que quebraram. Parece que foi do dia para a noite, só que não.



Antonio Netto, MSc - sócio sênior da Lombardi & Co.



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